Endometriose: o fim do mito de que “sentir dor extrema na menstruação é normal”

Por que ainda aceitamos que o sofrimento incapacitante faça parte da biologia feminina? Durante décadas, a queixa de dor pélvica severa foi silenciada por uma herança cultural que romantiza o sacrifício da mulher. Ouve-se no seio familiar, e por vezes até em consultórios desatualizados, que a cólica “faz parte do ser mulher”. No entanto, quando analisamos a fisiopatologia da endometriose, percebemos que não estamos falando de um desconforto cíclico comum, mas de uma doença inflamatória crônica, estrogênio-dependente, que pode comprometer a anatomia e a funcionalidade de múltiplos órgãos. O descompasso entre o sintoma e o diagnóstico é um dos maiores gargalos da ginecologia moderna. Estima-se que uma paciente demore, em média, de sete a dez anos para receber a confirmação de endometriose. Esse atraso não é apenas uma falha técnica; é o resultado da normalização da dor.

Analiticamente, a endometriose ocorre quando células semelhantes ao endométrio — o tecido que reveste o útero — se implantam fora da cavidade uterina, como nos ovários, peritônio, bexiga ou intestinos. A cada ciclo, esse tecido ectópico responde aos estímulos hormonais, sangra e inflama, mas, ao contrário do sangue menstrual, ele não tem por onde sair. O resultado é um ciclo vicioso de cicatrizes (fibroses), aderências e dor neuropática. Para diferenciar uma cólica comum (dismenorreia primária) da endometriose, precisamos olhar para a funcionalidade. Se a dor impede que a mulher trabalhe, estude ou mantenha relações sexuais, ela deixa de ser fisiológica e passa a ser patológica. Vejamos um cenário clínico comum: uma paciente de 28 anos que relata dores intensas que não cedem com analgésicos convencionais. Além da cólica, ela apresenta distensão abdominal excessiva durante o período menstrual e dor profunda durante a relação sexual (dispareunia). Muitas vezes, um ultrassom transvaginal comum, feito sem o protocolo específico, retorna com resultado “normal”. Isso ocorre porque a endometriose profunda exige um olhar treinado e exames de imagem específicos, como a ultrassonografia com preparo intestinal ou a ressonância magnética voltada para o mapeamento de focos de endometriose.

A falha em identificar a lesão em exames genéricos é, frequentemente, o que mantém a paciente presa ao mito da “dor normal”. Além do impacto na qualidade de vida, a análise técnica da doença revela uma conexão íntima com a fertilidade. Cerca de 30% a 50% das mulheres com dificuldade para engravidar possuem algum grau de endometriose. A inflamação crônica altera o microambiente pélvico, prejudicando a interação entre óvulo e espermatozoide, ou as aderências distorcem a anatomia das tubas uterinas, impedindo o transporte do embrião. O manejo da doença evoluiu de uma abordagem puramente cirúrgica para um tratamento multidisciplinar e individualizado. Não se trata apenas de “suspender a menstruação” com anticoncepcionais, embora o controle hormonal seja um pilar importante para conter a progressão das lesões.

O foco atual reside em: Controle do processo inflamatório através de dieta e estilo de vida. Fisioterapia pélvica para tratar a hipertonia da musculatura do assoalho pélvico decorrente da dor crônica. Cirurgia minimamente invasiva (laparoscopia ou robótica) reservada para casos de falha no tratamento clínico, obstruções de órgãos ou infertilidade. A integração entre a ginecologia e o suporte emocional também é vital. O diagnóstico de uma doença crônica exige acolhimento. Precisamos desconstruir a ideia de que a dor é um destino biológico. Quando uma mulher relata que sua vida para uma vez por mês, o papel do médico não é oferecer apenas um analgésico, mas investigar as causas subjacentes com rigor científico e empatia.

Dra. Carolina Malhone fibroadenoma mamário